BIR Gotemburgo – 2026: as tendências que estão moldando o futuro da reciclagem
Em junho, participamos do encontro do BIR (Bureau of International Recycling), realizado em Gotemburgo, na Suécia. Este evento global da indústria da reciclagem reúne recicladores, consumidores industriais, especialistas, associações e lideranças de diversos países para discutir os desafios e as oportunidades que estão transformando a economia circular no mundo.
Representando a Guarulhos Sucatas, nosso diretor Rafael Barros acompanhou os painéis e debates ao longo do evento e voltou com uma certeza ainda mais forte: a reciclagem está ocupando uma posição cada vez mais estratégica na indústria, na economia e na segurança de suprimentos globais, além de sua importância ambiental.
Entre os principais temas discutidos no BIR 2026 estiveram inteligência artificial aplicada à reciclagem, qualidade de materiais reciclados, livre comércio das matérias primas recicladas, reciclagem automotiva, minerais críticos e o papel estratégico da economia circular para a indústria global.
Compartilhamos abaixo alguns dos principais aprendizados.
Inteligência Artificial, criatividade e inovação
Na Guarulhos Sucatas, já convivemos com o avanço da Inteligência Artificial. Nossa planta de revalorização utiliza equipamentos de separação que contam com tecnologias avançadas embarcadas para identificação, classificação e recuperação de materiais recicláveis.
O futurista Tom Cheesewright destacou como a inteligência artificial deve influenciar a qualidade dos materiais, a eficiência operacional, a gestão dos materiais reciclados e a tomada de decisões. Já o palestrante Fredrik Härén trouxe uma reflexão complementar sobre criatividade. Segundo ele, criatividade é encontrar soluções para problemas. Ela começa quando acreditamos que existe uma solução possível. Nenhuma ideia surge do nada. Toda inovação é resultado da combinação de conhecimentos e experiências anteriores. Essa visão tem uma conexão direta com a própria reciclagem. Assim como transformamos materiais existentes em algo de maior valor, a inovação acontece quando combinamos ideias já existentes de uma nova forma para criar soluções melhores.
A principal conclusão foi clara: os recicladores do futuro não serão apenas fornecedores de matéria-prima reciclada. Serão parceiros estratégicos da cadeia industrial, oferecendo qualidade, rastreabilidade, conhecimento técnico e integração tecnológica, inclusive oferecendo soluções importantes para as cadeias de suprimentos.
Livre mercado e a importância da circulação dos materiais
Outro tema central foi o impacto das barreiras comerciais sobre a reciclagem. As matérias primas recicladas são commodities globais, e seus fluxos internacionais tiveram papel fundamental no desenvolvimento industrial de diversos países. Diversos especialistas apresentaram exemplos mostrando que restrições à exportação tendem a reduzir a coleta de materiais, diminuir seu valor econômico e favorecer o uso de matérias-primas mais intensivas em carbono.
Um ponto importante destacado durante os debates foi que mercados abertos e regulamentação ambiental não são conceitos incompatíveis. Ambos podem coexistir desde que as políticas públicas reconheçam adequadamente o valor ambiental e econômico da reciclagem.
Também foi discutida a mudança de visão que ocorre atualmente na Europa. Historicamente considerada apenas um material reciclável, a sucata ferrosa passou a ser tratada como um ativo estratégico para a política industrial. O debate passou a envolver competitividade, segurança de suprimento, autonomia industrial e reindustrialização.
Outro aprendizado relevante foi entender que os recicladores europeus não exportam porque preferem exportar. Na maioria das vezes, exportam porque não existe demanda interna suficiente para absorver todo o material disponível. A venda local continua sendo a alternativa mais simples e eficiente quando existe mercado consumidor. Além disso, muitas vezes a tecnologia disponível internamente no país não é suficiente, ou não é desenvolvida a ponto de reciclar alguns materiais específicos. Por isso, torna-se necessária a busca por mercados mais desenvolvidos que possuam a tecnologia adequada para esses materiais. Essa realidade também faz muito sentido para os recicladores brasileiros.
Reciclagem automotiva entra em uma nova fase
As discussões sobre reciclagem automotiva mostraram que o setor está passando por uma transformação global. Diversos países estão revisando suas regulamentações e ampliando a responsabilidade dos fabricantes sobre o ciclo de vida dos veículos. O conceito de Responsabilidade Estendida do Produtor (EPR) ganha cada vez mais força, exigindo que montadoras e fabricantes compartilhem informações sobre a composição dos veículos e participem mais ativamente da construção da circularidade.
A harmonização das regras entre países também apareceu como um desafio importante. Afinal, um veículo pode ser fabricado em um país, vendido em outro e reciclado em um terceiro. Os debates mostraram que o fim de vida dos veículos está deixando de ser visto apenas como descarte e passando a ser considerado uma importante fonte de matérias-primas recicladas. Entre os principais desafios destacam-se a recuperação de plásticos, o avanço das tecnologias de reciclagem química e os impactos que a retirada prévia de componentes pode gerar nos processos de fragmentação e recuperação de materiais.
A conclusão foi que os recicladores precisam participar ativamente dessas discussões junto às montadoras, reguladores, associações e demais integrantes da cadeia.

Minerais críticos: um desafio para as próximas décadas
A crescente demanda por eletrificação, energias renováveis, baterias e novas tecnologias está aumentando a importância dos chamados minerais críticos. Embora sua reciclagem ainda apresente desafios técnicos e econômicos significativos, ficou evidente que a recuperação desses materiais será cada vez mais necessária para complementar a oferta global de recursos naturais. A economia circular terá papel decisivo para reduzir a dependência de novas extrações, aumentar a segurança de suprimento e garantir o abastecimento das futuras gerações.
A importância de como comunicamos nosso setor
Um dos aprendizados mais simples e, ao mesmo tempo, mais poderosos veio da reflexão sobre a linguagem. As palavras que utilizamos influenciam diretamente a forma como a sociedade percebe nosso trabalho.
Quando nos posicionamos apenas como “sucateiros” e usamos palavras como “sucata” ou “lixo”, limitamos a compreensão sobre o valor que geramos. Quando nos apresentamos como recicladores e fornecedores de matérias-primas secundárias para a indústria, mostramos com mais clareza nossa contribuição para a economia, para a indústria e para a sustentabilidade.
Somos os principais porta-vozes da reciclagem. E comunicar corretamente o que fazemos é uma responsabilidade de todos nós.
Qualidade será cada vez mais decisiva
Outro consenso entre os especialistas foi que a qualidade dos materiais ganhará importância crescente. Em mercados cada vez mais sofisticados, os consumidores industriais não compram apenas toneladas de material. Compram especificações.
As exigências relacionadas à composição química, níveis de impurezas, rastreabilidade e desempenho dos materiais estão aumentando rapidamente. A evolução dos sistemas de separação, sensores e tecnologias de classificação permite níveis de precisão cada vez maiores. Como resultado, os materiais reciclados passam a ser comercializados com características técnicas mais detalhadas, atendendo demandas específicas de cada aplicação industrial.
A competitividade do futuro estará cada vez mais ligada à capacidade de entregar materiais com qualidade consistente, previsível e adequada às necessidades de cada cliente.
O que tudo isso significa para a reciclagem no Brasil?
Embora muitos dos debates tenham ocorrido sob a perspectiva europeia, norte-americana e asiática, os temas discutidos possuem grande relevância para a realidade brasileira.
A indústria da reciclagem no Brasil já desempenha um papel fundamental no fornecimento de matérias-primas recicladas para siderúrgicas, fundições e indústrias de transformação. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados à qualidade dos materiais, competitividade, regulamentação, logística e ampliação da circularidade.
Os debates do BIR reforçam que o futuro da reciclagem dependerá cada vez mais de tecnologia, rastreabilidade, qualidade, inovação e integração com as cadeias industriais. Mais do que reciclar materiais, os recicladores serão agentes estratégicos da transição para uma economia circular de baixo carbono.
A reciclagem é infraestrutura para o futuro
Neste BIR, ficou ainda mais evidente que a reciclagem ocupa uma posição estratégica para o futuro da sociedade. Durante um dos painéis, John Sacco, da Sierra, fez uma comparação interessante ao afirmar que a reciclagem é tão vital para a sociedade quanto os próprios sinais vitais são para o ser humano. A frase resume bem o sentimento que levamos de Gotemburgo.
Para Rafael Barros, a participação no BIR reforçou a convicção de que vale a pena continuar defendendo e fortalecendo nosso setor.
“A reciclagem está cada vez mais no centro das discussões sobre indústria, clima, competitividade e desenvolvimento econômico. Saio do BIR revitalizado e com ainda mais disposição para continuar trabalhando por aquilo em que acreditamos: mostrar a importância da reciclagem e atuar como um verdadeiro advogado do nosso setor.”
Seguimos acompanhando as transformações globais, compartilhando conhecimento e contribuindo para que a reciclagem continue avançando no Brasil e no mundo.